Literatura Infantil

Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir
muitas, muitas histórias... Escutá-las é o início da aprendizagem
para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente
infinito de descoberta e de compreensão do mundo...
Fanny Abramovich
Os primeiros impressos
Os primeiros impressos para crianças não tinham nenhuma intenção mais amena. Páginas coladas a um suporte, que a primeira vista podiam servir também de palmatória. Começam a ser usadas em 1440 e continuam a aparecer até 1850 . Além do ABC incluíam orações, ensinamentos morais ou políticos.
Mas logo a criança descobre as anedotas, contos maravilhosos, episódios de cavalaria. E se apossam dessas narrativas populares, que não foram escritas especialmente para elas.
Origens da Literatura Infantil
O impulso de contar histórias deve ter nascido no homem, no momento em que ele sentiu necessidade de comunicar aos outros alguma experiência sua, que poderia ter significação para todos.
A célula máter da Literatura Infantil, hoje conhecida como “clássica”, encontra-se na Novelística Popular Medieval que tem suas origens na Índia. Descobriu-se que desde essa época a palavra impôs-se ao homem como algo mágico, como um poder misterioso, que tanto poderia proteger, como ameaçar, construir ou destruir. São, também, de caráter mágico ou fantasioso, as narrativas conhecidas, hoje, como literatura primordial. Nela foi descoberto o fundo fabuloso das narrativas orientais, que se forjaram durante séculos antes de Cristo, e se difundiram por todo o mundo, através da tradição oral.
A Literatura Infantil apareceu durante o século XVII, época em que as mudanças na estrutura da sociedade desencadearam repercussões no âmbito
artístico, que persistem até os dias atuais. O aparecimento da Literatura Infantil tem características próprias, pois decorre da ascensão da família burguesa, do novo “status” concedido à infância na sociedade e da reorganização da escola. Sua emergência deveu-se, antes de tudo, à sua associação com a Pedagogia, já que as histórias eram elaboradas para se converterem em instrumento dela.
É a partir do século XVIII que a criança passa a ser considerada um ser diferente do adulto, com necessidades e características próprias, pelo que deveria distanciar-se da vida dos mais velhos e receber uma educação especial, que a preparasse para a vida adulta.
O caminho para a redescoberta da Literatura Infantil, em nosso século, foi aberto pela Psicologia Experimental que, revelando a Inteligência como um elemento estruturador do universo que cada indivíduo constrói dentro de si, chama a atenção para os diferentes estágios de seu desenvolvimento (da infância à adolescência) e sua importância fundamental para a evolução e formação da personalidade do futuro adulto. A sucessão das fases evolutivas da inteligência (ou estruturas mentais) é constante e igual para todos. As idades correspondentes a cada uma delas podem mudar, dependendo da criança, ou do meio em que ela vive.
Fábulas (do latim- fari - falar e do grego - Phao - contar algo)
Narrativa (de natureza simbólica) de uma situação vivida por animais, que alude a uma situação humana e tem por objetivo transmitir certa moralidade.
Nascida no Oriente, vai ser reinventada no Ocidente pelo grego Esopo (Séc. VI a.C.) e aperfeiçoada, séculos mais tarde, pelo escravo romano Fedro (Séc. I a.C.) que a enriqueceu estilisticamente. Entretanto, somente no século X, começaram a ser conhecidas as fábulas latinas de Fedro.
Ao francês Jean La Fontaine (1621/1692) coube o mérito de dar a forma definitiva a uma das espécies literárias mais resistentes ao desgaste dos tempos: a fábula, introduzindo-a definitivamente na literatura ocidental. Embora escrevendo para adultos, La Fontaine tem sido leitura obrigatória para crianças de todo mundo.
Podemos citar aqui algumas fábulas de La Fontaine: “O Lobo e o Cordeiro”, “A Raposa e o Esquilo”, “Animais Enfermos da Peste”, “A Corte do Leão”, “O Leão e o Rato”, “O Pastor e o Rei”, “O Leão, o Lobo e a Raposa”, “O Leão Doente e a Raposa”, “A Corte e o Leão”, “Os Funerais da Leoa”, “A Leiteira e o Pote de Leite”. Para quem as inventa, a fábula é um jogo de raciocínio. Um jogo ágil e lógico, cujo resultado é um ensinamento.
Contos de Fadas
Quem lê “Cinderela” não imagina que há registros de que essa história já era contada na China, durante o século IX d. C.. E, assim como tantas outras, tem-se perpetuado há milênios, atravessando toda a força e a perenidade do folclore dos povos, sobretudo, através da tradição oral.
Pode-se dizer que os contos de fadas, na versão literária, atualizam ou reinterpretam, em suas variantes questões universais, como os conflitos do poder e a formação dos valores, misturando realidade e fantasia, no clima do “Era uma vez...”.
Por lidarem com conteúdos da sabedoria popular, com conteúdos essenciais da condição humana, é que esses contos de fadas são importantes, perpetuando-se até hoje. Neles encontramos o amor, os medos, as dificuldades de ser criança, as carências (materiais e afetivas), as auto-descobertas, as perdas, as buscas, a solidão e o encontro. Os contos de fadas caracterizam-se pela presença do elemento “fada”. Etimologicamente, a palavra fada vem do latim fatum (destino, fatalidade, oráculo).
Tornaram-se conhecidas como seres fantásticos ou imaginários, de grande beleza, que se apresentavam sob forma de mulher. Dotadas de virtudes e poderes sobrenaturais, interferem na vida dos homens, para auxiliá-los em situações-limite, quando já nenhuma solução natural seria possível. Podem, ainda, encarnar o Mal e apresentarem-se como o avesso da imagem anterior, isto é, como bruxas. Vulgarmente, se diz que fada e bruxa são formas simbólicas da eterna dualidade da mulher, ou da condição feminina.
O enredo básico dos contos de fadas expressa os obstáculos, ou provas, que precisam ser vencidas, como um verdadeiro ritual iniciático, para que o herói alcance sua auto-realização existencial, seja pelo encontro de seu verdadeiro “eu”, seja pelo encontro da princesa, que encarna o ideal a ser alcançado.
Lendas (do latim legenda/legen - ler)
Nas primeiras idades do mundo, os homens não escreviam. Conservavam suas lembranças na tradição oral. Onde a memória falhava, entrava a imaginação para supri-la e a imaginação era o que povoava de seres o seu mundo.
Todas as formas expressivas nasceram, certamente, a partir do momento em que o homem sentiu necessidade de procurar uma explicação qualquer para os fatos que aconteciam a seu redor: os sucessos de sua luta contra a natureza, os animais e as inclemências do meio ambiente, uma espécie de exorcismo para espantar os espíritos do mal e trazer para sua vida os atos dos espíritos do bem. A lenda, em especial as mitológicas, constitui o resumo do assombro e do temor do homem diante do mundo e uma explicação necessária das coisas. A lenda, assim, não é mais do que o pensamento infantil da humanidade, em sua primeira etapa, refletindo o drama humano ante o outro, em que atuam os astros e meteoros, forças desencadeadas e ocultas.
A lenda é uma forma de narrativa antiquíssima, cujo argumento é tirado da tradição. Relato de acontecimentos, onde o maravilhoso e o imaginário superam o histórico e o verdadeiro.
Geralmente, a lenda está marcada por um profundo sentimento de fatalidade. Este sentimento é importante, porque fixa a presença do Destino, aquilo contra o que não se pode lutar e demonstra, irrecusavelmente, o pensamento do homem dominado pela força do desconhecido.
De origem muitas vezes anônima, a lenda é transmitida e conservada pela tradição oral.
Poesia
O gênero poético tem uma configuração distinta dos demais gêneros literários. Sua brevidade, aliada ao potencial simbólico apresentado, transforma a poesia em uma atraente e lúdica forma de contato com o texto literário.
Há poetas que quase brincam com as palavras, de modo a cativar as crianças que ouvem, ou lêem esse tipo de texto. Lidam com toda uma ludicidade verbal, sonora e musical, no jeito como vão juntando as palavras e acabam por tornar a leitura algo muito divertido.
Como recursos para despertar o interesse do pequeno leitor, os autores utilizam-se de rimas bem simples e que usem palavras do cotidiano infantil; um ritmo que apresente certa musicalidade ao texto; repetição, para fixação da idéias, e melhor compreensão dentre outros.
Pode-se refletir, acerca da receptividade das crianças à poesia, lendo as considerações de Jesualdo:
“(...) a criança tem uma alma poética. E é essencialmente criadora. Assim, as palavras do poeta, as que procuraram chegar até ela pelos caminhos mais naturais, mesmo sendo os mais profundos em sua síntese, não importa, nunca serão melhor recebidas em lugar algum do que em sua alma, por ser mais nova, mais virgem (...)”
Histórias de Sherazade
Sherazade foi uma das mulheres do sultão árabe Sheriar. O sultão tinha o hábito de casar-se todos os dias com uma nova mulher e, no dia seguinte, mandava matá-la. Sherazade, ao casar-se com o sultão, contou-lhe uma história e a interrompeu na melhor parte. O sultão, que gostava muito de histórias, deixou-a viver para ouvir a continuação na noite seguinte. E assim passaram-se mil e uma noites, até que o sultão resolveu não matá-la mais. As mais conhecidas são: “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, “Simbad, o marujo” e Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”.
As Mil e Uma Noites
É a mais célebre compilação de contos maravilhosos, que circularam no mundo ocidental. Sua forma original deve ter-se completado em fins do século XV. Entretanto, só no início do século XVIII foi divulgada no mundo europeu, quando Antoine Galland traduziu para o francês uma primeira seleção. Galland, culto compilador/tradutor de textos originais, reuniu nesta fabulosa coletânea textos originários de todas as regiões do Oriente.
Fábulas de Fedro
Supõem-se que tenha vivido no século I d.C., era filho de escravos, mas era livre. Inspirou-se nas histórias de Esopo, acrescentando melhorias em algumas.
Fábulas de La Fontaine
Jean de la Fontaine (1621-1695) nasceu na França e conquistou a celebridade através de suas fábulas. Passou praticamente toda a sua vida como hóspede de personagens ilustres (duques e condes) que o admiravam. Apesar de La Fontaine contar fábulas de outros mestres, ele as escrevia mais em verso do que em prosa. Para ele “os animais simbolizavam os homens, suas manias e seus defeitos”.
Na fábula A Formiga e o Escaravelho de Esopo, o Escaravelho caçoa da Formiga atarefada, enquanto todos se divertem no verão. O comportamento da formiga fica mais perdoável. Já o nosso querido Braguinha não iria deixar uma colega cigarra nessa situação de penúria. Na sua versão, publicada pela Moderna, a história termina com a Formiga fazendo sua auto-crítica: Eu acho que tem razão,/ minha cigarra querida./ Vivo juntando mil coisas / e desperdiçando a vida.
Os Contos de Fadas de Perrault
Charles Perrault (1628-1703), advogado e superintendente do rei da França, foi o primeiro autor a escrever especialmente para as crianças. Ao aposentar-se, Perrault transformou contos do folclore popular em histórias infantis. Os mais conhecidos são: “A Bela Adormecida”, “Barba Azul”, “O pequeno Polegar”, “O Gato de Botas”. Charles Perrault publicou em 1697 suas “Histoires ou contes du temps passé” conhecidas como as estórias de Mamãe Gansa, uma coletânea de oito contos. Perrault é ainda considerado o Pai dos Contos de Fadas, mas isto é uma coisa que está mudando de figura ultimamente. Apensar de alguns teóricos ainda não aceitarem, o que o autor francês realizou não foi uma recolha de estórias da tradição, isenta de qualquer manipulação. Ao contrário, Perrault ajustou ao gosto e ao propósito da classe aristocrática, na época, a corte francesa. Embora seja o mais famoso “Pai”, muitas “Mães” o antecederam, entre elas, Mme. D’Aulnoy, Mme. Lubert, Mme. de Beaumont... que escreviam como divertimento, sem grandes pretensões literárias ou intelectuais; enfim, o termo “conto de fadas” tem sua origem nesta França de Luís XIV.
Os Contos dos Irmãos Grimm
Os irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), eram alemães. Após a morte dos pais começaram a viajar muito a trabalho. As histórias que as pessoas contavam deram aos irmãos a idéia de escrevê-las. As mais famosas são: “Chapeuzinho Vermelho”, “Rapunzel” e “Branca de Neve e os Sete Anões”.
Recolhem, diretamente, da memória popular as antigas narrativas, lendas ou sagas germânicas, conservadas por tradição oral. Buscando encontrar as origens da realidade histórica germânica, os pesquisadores encontram a fantasia, o fantástico, o mítico ... e uma grande Literatura Infantil surge, para encantar crianças de todo o mundo.
Tinham dois objetivos básicos com a pesquisa:
1. levantamento de elementos lingüísticos para fundamentação dos estudos filológicos da língua alemã;
2. fixação dos textos do folclore literário germânico, expressão autêntica do espírito da raça.
Os Contos de Anderssem
Hans Christian Andersem (1805-1875) viveu na Dinamarca e vinha de uma família muito pobre. Adorava as histórias contadas pelos homens que eram pobres e ficaram ricos. Escreveu cerca de 156 contos, traduzidos em mais de cem idiomas, como “A roupa nova do imperador”, “O patinho feio” e a “Pequena Sereia”.
Célebre poeta e novelista dinamarquês, Andersen nasce no mesmo ano em que Napoleão Bonaparte obtinha suas primeiras vitórias decisivas. Assim, desde menino, vai respirar a atmosfera de exaltação nacionalista.
A Dinamarca também se entrega à descoberta dos valores ancestrais, não com o espírito de auto-afirmação política, mas no sentido étnico, de revelar o caráter da raça. Tal como fizeram os Irmãos Grimm.
Andersen foi um escritor que se preocupou, essencialmente, com a sensibilidade exaltada pelo Romantismo
As histórias de Monteiro Lobato
O advogado José Renato Monteiro Lobato (1882-1948), nasceu no município de Taubaté, em São Paulo. Em 1911 herda as terras do Visconde de Tremenbé, e descobre a velha estrutura rural do país. Assim nasceu o bem-humorado “Jeca Tatu”, símbolo do caipira brasileiro. Em 1920, Lobato elabora um conto infantil, “A história do peixinho que morreu afogado”, e em 1921, “Narizinho arrebitado”.
Estava dado o início para a criação de uma série de aventuras no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Assinava as histórias como José Bento Monteiro Lobato, JBML, que eram as iniciais gravadas na bengala que usava, herdada de seu pai.
Foi Lobato que, fazendo a herança do passado submergir no presente, encontrou o novo caminho criador de que a Literatura Infantil brasileira estava necessitando.
Seu sucesso imediato entre os pequenos leitores ocorreu de um primeiro e decisivo fator: a realidade comum e familiar à criança, em seu cotidiano, é, subitamente, penetrada pelo maravilhoso, com a mais absoluta verossimilhança e naturalidade. Com o crescimento e enriquecimento do fabuloso mundo de suas personagens, o maravilhoso passa a ser o elemento integrante do real. Assim é que personagens “reais” (Lúcia, Pedrinho, D. Benta, Tia Nastácia, etc.) têm o mesmo valor das personagens “inventadas” (Emília, Visconde de Sabugosa e todas as personagens que povoam o universo literário lobatiano).
Emília é a personagem mais importante para se compreender o universo lobatiano. Ela revela-se como o protótipo-mirim do “super-homem”, com sua vontade e domínio, além de exacerbaA vasta produção de Lobato, na área de Literatura Infantil, engloba obras originais, adaptações e traduções. Dentre os originais estão: “A Menina do Nariz Arrebitado”; “O Saci”; “Fábulas do Marquês de Rabicó”; “Aventuras do Príncipe”; “Noivado de Narizinho”; “O Pó de Pirlimpimpim”; “Reinações de Narizinho”; “As Caçadas de Pedrinho”; “Emília no País da Gramática”; “Memórias da Emília”; “O Poço do Visconde”; “O Pica-pau Amarelo” e “A Chave do Tamanho”.
Nas adaptações, Lobato preocupou-se com um duplo objetivo: levar às crianças o conhecimento da tradição, o conhecimento do acervo herdado e que lhes caberá transformar; e também questionar, com elas, as verdades feitas, os valores e não-valores que o tempo cristalizou e que cabe ao presente redescobrir e renovar. Nesse sentido, merecem destaque: “D. Quixote das Crianças”; “O Minotauro” e a mitologia grega na série “Os Doze Trabalhos de Hércules”.
do individualismo.
Contos de Malba Tahan
Júlio Cesar de Melo e Souza (1895-1974), nasceu no Rio de Janeiro. Foi educador do Serviço Nacional de Assistência aos Menores e catedrático de matemática do Colégio PedroII e da Faculdade Nacional de Arquitetura. Ao adotar o pseudônimo de Malba Tahan, criou uma biografia: Ali Iezid Izz-Edim Ibn Salim Hank Malba Tahan nasceu na aldeia de Muzalit, próximo a antiga cidade de Meca... Popularizou a arte de contar histórias nas escolas. Ao todo são 115 obras entre livros didáticos de matemática e contos juvenis. “O Homem que Calculava” é um dos livros mais conhecidos.
Autores Modernos
A década de 70 ficou conhecida como a época do "boom" da literatura infantil. Com a consolidação do mercado editorial, e a crescente dependência do livro com a escola, aumentou expressivamente o número de autores produzindo para a infância.
Surgiram escritoras marcantes como Ana Maria Machado, Sylvia Orthof, Marina Colasanti e Lygia Bojunga Nunes, Ruth Rocha, Roseana Murray. Autores como Ziraldo e Pedro Bloch, , dignos "filhos de Lobato", trouxeram o humor de volta ao leitor infantil e juvenil. Encontramos de tudo um pouco nos livros brasileiros para crianças e jovens. O realismo mágico, em que as fronteiras entre a realidade cotidiana e o imaginário se diluem. O maravilhoso, mostrando situações ocorrendo fora de nosso espaço-tempo. Que caminhos a literatura brasileira para crianças e jovens tomará no século que agora se inicia? Não sabemos. Mas temos por certo que essa manifestação artística não pode continuar sendo subestimada ou desprezada pela sociedade ou pela mídia. Nosso país tem inúmeros problemas, e não há um só deles que não possa ser resolvido, ou atenuado, pelo investimento na educação e na cultura de nosso povo. Ora, se falamos em educação / cultura, falamos em livros.
Estórias-em-quadrinhos. As estórias-em-quadrinhos são tão válidas quanto os livros ilustrados., o interesse maior que os pequenos demonstram pelos livros ilustrados ou, ainda, pelas estórias-em-quadrinhos, está na facilidade com que esse tipo de literatura “fala” à mente infantil; ou melhor, atende diretamente à natureza ou necessidade específicas da criança. As imagens, atingem direta e plenamente o pensamento intuitivo que é característico da inf6ancia.
Daí o fascínio da meninada pelas estórias-em-quadrinhos não resulte apenas no fato de gostarem desse tipo de literatura “fácil”, mas porque essa literatura corresponde a um processo de comunicação que atende mais facilmente à sua própria predisposição psicológica.A estória-em-quadrinhos, atacada por uns e defendida por outros, vem se firmando cada vez mais na industria cultural contemporânea. No Brasil, embora ainda não haja uma produção de estórias-em-quadrinhos que represente o nacional, já existe uma certa tradição: o primeiro jornal em quadrinhos, dedicado às crianças – o famoso O Tico-Tico – começou a ser publoicado em 1905. Crsce de importância o terreno conquistado pela arte dos quadrinhos e principalmente o de Maurício de Souza.
Ele é hoje o único desenhista que vive de quadrinhos, os outros são publicitários, ilustradores, professores além de desenhistas de quadrinhos.
A Poesia destinada às crianças
A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de liberação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu selo se resolvem todos os conflitos objetivos e o homem adquire por fim a consciência de ser algo mais do que transito. ( Octavio Paz)
Nascida em fins do século XIX e expandindo-se nos primeiros anos do nosso século, a poesia infantil brasileira surge comprometida com a tarefa educativa da escola, no sentido de contribuir para formar no aluno o futuro cidadão e o indivíduo de bons sentimentos. Daí a importância dos “recitativos” nas festividades patrióticas ou familiares, e a exemplaridade ou a sentimentalidade que caracterizaram tal poesia. Fazia parte do nosso sistema educativo ( fins do século XIX até os anos 30/40 ) a memorização de poemas que deviam ser ditos pelos alunos nas aulas de leitura ou nas datas festivas. ( Foram inúmeras as queixas que ouvimos de amigos ou familiares mais velhos, ao recordarem a vergonha ou a raiva com que se submetiam a tal recitação obrigatória e que os levou a detestar poesia...). Entende-se hoje, que o dizer poesia é algo muito subjetivo e pessoal que não deve ser imposto à criança... pois só será gratificante se resultar de um gesto espontâneo, feito com entusiasmo ou alegria. No passado, porém, os objetivos eram outros.
A exemplaridade ultrapassada – leia o poema de “Boas Maneiras”:Mamãezinha me ensinou / a ser criança educada/ a todos cumprimentar/ para ser apreciada/ cumprimento meus vizinhos/ dos colegas não me esqueço/ agora vão bater palmas/ se acharem que mereço!
Nota-se ainda a lição de “etiqueta social”, mostrando que o cumprimento às pessoas é uam regra de educaçào, e não um gesto de comunicaçào afetiva, como deveria ser... Além disso, há ainda a expectativa da recompensa: por ser “apreciada” em sua boa ação, a criança deve ser “recompensada”... A socializaçõa das crianças, hoje, deve ser feita em novas bases.
Cecília Meirelles
Uma das vozes mais felizes na percepção dessa autenticidade infantil foi Cecília Meirelles. A partir dos anos 30 (e circunsctancialmente devido à sua ligação com o magistério e problemas educacionais), Cecília começa a escrever poemas infantis. De início divulga-os na imprensa, como é o caso de “A Canção dos Tamanquinhos”, incluído em várias antologias e manuais escolares.
Como grande poetisa que era, Cecília Meirelles, conseguiu o que raros conseguem : manter a pureza do olhar-criança e a capacidade sempre renovada de se encantar com coisas simples do mundo. Ela transforma as palavras, como numa brincadeira-de-sons, dinâmica e colorida.
Vinícius de Moraes
Os poemas infantis de Vinícius de Moraes ( poeta que se notabilizou por suas criações para a música popular brasileira) foram escritos ao longo dos anos e ao sabor das circunstâncias, foram reunidos em livro, em 71. Poeta do Amor e da Sensualidade mais profunda, Vinícius não seria, talvez, a voz adequada para falar às crianças. Entretanto ele o fez e em muitos momentos de sua poesia infantil reencontra a ingenuidade do olhar antigo e se deixa arrastar pelo ludismo, que é indispensável à comunicação com a criança.
Pra isso, o professor terá, claro, que ler um montão de livros. Separar os que são fraquinhos, os que contam histórias sem graça, os que não dão nenhuma idéia nova pra resolver um velho problema, os que repetem o que todo mundo já sabe dum jeito chatoso, os que são mal-escritos. Livros fracos existem, claro. E de montão. Até podem ser usados em classe, se se trabalhar muito e sempre com o sentido crítico do aluno. Esteja ele na 1ª ou na 8ª série. Tanto faz. Saber explicar por que gostou ou não gostou, por que se encheu ou se maravilhou, o que achou tão bonito que teve vontade de copiar no caderno, o que sentiu como tão bocó que até pulou uns pedaços, por que aquele personagem não convenceu de jeito nenhum, por que amou de paixão deslavada um outro...
Criticar sempre. Ler com atenção e dar a sua opinião. Própria, particular, única. Com qualquer texto que leia. Saber perceber o que aquela história possuía de especial ou de comunérrima. Saber diferenciar. Sacar o que aprendeu, o que estimulou, o que deu vontade de reler, de ir mais longe e mais fundo, o que não quer saber mais, pelo menos por enquanto, daquele autor ou daquele tema.
E se o aluno se encantar com um autor ou com um gênero, ir além naquela procura. Ler mais e novos livros daquele escritor tão especial, ou tão divertido, ou tão cutucante, descobrir livros de antigamente que ele, um dia, escreveu, sacar sua obra duma maneira mais ampla. Se o aluno curtiu a leitura dum policial ou de poesias, mergulhar fundo em outras publicações desse tipo de escrivinhação. Abrir o leque de autores que mergulharam nesse jeito de escrever, comparar histórias e soluções, palavras e belezuras, finais e ritmos, cadências e coloração. Ah, como é bom saber sacar outros tons, outros subtons, outras cores, outras linhas e entrelinhas... Ler com os olhos, com os poros, com as bateduras do coração, com o entusiasmo de quem se entregou a uma nova aventura. Pura aventura!Quando for ler poesia em classe, ou textos de pura prosa poética, deixar o aluno ler em voz alta. Curtir cada palavra, degustar cada imagem, se divertir com cada achado. Se embalar no ritmo, balançar com cadência, sublinhar cada boniteza especial. Deixar viver a comparação. O verso ou frase que um gostou mais é diferente da do aluno que senta ao lado.
A palavra ou parágrafo que outro curtiu apaixonadamente passou desapercebido do colega. Trocar essas descobertas pode ser uma grande ampliada. Linda!!! E depois, quem quiser, copiar mo caderno ou agenda aquela maravilha lida, pra poder usar numa carta especial, reler de noitinha, falar baixinho pelo telefone. Arrepiante!!Quando se for ler um texto divertido, que se sublinhe a graça. Pra uns estava em outro lugar, pra outros nem foi sacada, por outros nem foi entendida enquanto humor deslavado. Trabalhar com isso, sublinhar, fazer aparecer, perguntar, pedir pra ler
Diálogos inteiros em voz alta, colocar aqueles personagens em outros lugares ou diferentes situações, inverter, se divertir. Que gostosura plena é ler um livro bem-humorado, com lances inacreditáveis, com diálogos inusitados, com situações não previstas ou nem imaginadas pelo aluno. Maior delícia! Provoca a gargalhada pura e deliciosa. Refrescante! Quando for ler uma história de medo, não ter medo do medo. A criança gosta de senti-lo. É uma sensação prazerosa. Coração batendo, arrepios nas costas, mãos se cruzando, unhas se arrastando. E depois, ler que o medo foi enfretado, vencido. Vitória, vitória!! Baita livro. Histórias de terror fazem parte do repertório universal desde sempre. São explicações de enfretamento, de não temer o não saber encarar. Qualquer um pode, de seu jeito particular, enfrentar suas florestas, suas feras, seus gigantes e vampiros. E sair vitorioso, porque foi à luta. Porque não temeu o que só estava ali pra provocar, para medir forças e ameaçar. Precisa apenas Ter coragem, valentia, artimanhas e jeitos pra achar a solução. Dá pra encarar, lutar de ganhar!E quando for necessário ler histórias tristes, sobre vida e morte, dores e sofrências, perdas e temores, abandonos e incompreensões, rejeições e desafetos, ir fundo. Não passar rapidinho por cima das grandes questões vitais. Elas requerem tempo para serem deglutidas, compreendidas, vividas. Não podem Ter um tratamento superficial, porque o tema incomoda. Vida incomoda?? Crescimento não é doloroso?? Perdas não causam danos?? Rejeições não são sofridas??? Fazem parte da vida e de todos. De qualquer idade. Bom poder ler sobre isso tudo numa historia que mostra que outros já passaram por aquelas angustias todas. E resolveram a seu modo. Talvez o jeito que foi enfrentado possa ser um espelho pro leitor. É lendo a resposta que podemos encontrar a nossa.
E depois do livro lido e vivido, sentido e sacado, pedir que façam desenho, teatralizem, inventem novas situações.... e tantas outras idéias que cada livro dá. Fazer vibrar! Ler é um prazer. É uma gostosura. São possibilidades infinitas de descobrir o mundo, os outros. São respostas, novas perguntas, achados. Mas pro aluno ser um apaixonado, é preciso que o professor também seja. Por isso, aqui vai minha sugestão : comece agora, sem canseira, sem monotonia, sem bobice de preguiças, leia! Você terá muito o que contar e com o que se encantar...
















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